FLEXIBILIDADE OU INTENSIFICAÇÃO DO TRABALHO?
JORNADA FLEXÍVEL, TELETRABALHO E QUALIDADE DE VIDA NO SERVIÇO PÚBLICO
Resumo
A flexibilização da jornada de trabalho e a implementação do Programa de Gestão e Desempenho (PGD) têm reconfigurado o serviço público brasileiro, produzindo tensões entre experiências de bem-estar e mal-estar laboral e suscitando reflexões sobre a dignidade do trabalhador. Este estudo teve como objetivo analisar os possíveis efeitos dos modelos de jornada flexível sobre a Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) de servidores técnico-administrativos de uma universidade pública, assim como avaliá-los à luz dos referenciais de trabalho digno e decente. Adotou-se uma abordagem quanti-qualitativa, conforme proposta por Ferreira (2017), fundamentada na Ergonomia da Atividade, em diálogo com o Direito Constitucional do Trabalho. Foram analisadas as percepções dos servidores acerca das condições e da organização do trabalho, com ênfase na jornada laboral flexibilizada e no teletrabalho. Os resultados apontaram para o caráter ambivalente da flexibilidade: de um lado, foram relatados maior autonomia e melhor equilíbrio entre vida pessoal e trabalho; de outro, identificaram-se intensificação laboral, hipervigilância e hiperconexão. Verificou-se, ainda, o uso do teletrabalho como estratégia de proteção diante de ambientes presenciais associados a experiências de mal-estar. Os achados indicam que os efeitos da flexibilização dependem menos das prescrições formais do trabalho e mais das condições concretas em que ele se realiza e da qualidade das relações socioprofissionais. Conclui-se que a promoção da saúde ocupacional requer a superação de abordagens meramente assistencialistas de QVT. Nesse sentido, a flexibilização da jornada somente contribui para a efetivação do trabalho digno e decente quando sustentada por condições laborais que conciliem produtividade e bem-estar.
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