Desinformação política, mídias digitais e democracia: Como e por que as fake news funcionam?

Autores

DOI:

https://doi.org/10.11117/rdp.v18i99.5939

Palavras-chave:

Desinformação, mídias digitais, esfera pública, psicologia de massas, filosofia da linguagem.

Resumo

A desinformação é hoje objeto de intenso debate, principalmente por conta dos riscos à democracia. Os contornos do fenômeno, contudo, remanescem relativamente imprecisos. Desinformação é comumente associada à mentira ou à liberdade de expressão. O artigo sustenta que a desinformação deve ser entendida como operação social, e não como conduta individual: ela orienta o comportamento humano, a despeito da falsidade, ao permitir uma atribuição de sentido ao mundo. Como isso acontece? Para responder a essa pergunta, o trabalho integra quatro eixos de análise: (i) a fragmentação da esfera pública permite compreender o ambiente em que se desenvolve a ubiquidade das novas mídias digitais; (ii) o modelo de negócios baseado no engajamento on-line reverte características básicas da esfera pública: a integração de pontos de vista conflitantes; (iii) essa reversão produz efeitos para o indivíduo que simulam o comportamento de massa (contágio emocional e suspensão da racionalidade); e (iv) a reiteração de um enunciado linguístico produz um “efeito-verdade” para a desinformação ao permitir que o destinatário use o enunciado para atribuir sentido ao mundo. O artigo propõe uma sociologia interdisciplinar da desinformação, oferecendo uma descrição inédita e precisa dos processos sociais que estruturam o fenômeno.

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Biografia do Autor

João Paulo Bachur, Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP/DF)

Graduado em direito pela Universidade de São Paulo - USP (2001), formou-se profissionalmente como advogado no escritório Lilla, Huck, Otranto, Ribeiro, Camargo & Messina, em São Paulo, tendo atuado nas áreas de direito societário e tributário (2000-2002). Possui mestrado (2004) e doutorado (2009) em ciência política pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (2009). Foi pesquisador visitante do Instituto de Filosofia da Universidade Livre de Berlim com bolsa de pós-doutorado da Fundação Alexander von Humboldt (2012-2013). Atuou como professor voluntário do Instituto de Ciência Política da Universidade de Brasília - UnB (2005-2007, 2010, 2015). Como servidor público federal da carreira de especialista em políticas públicas e gestão governamental (2007-2017), atuou nas áreas de assessoria jurídica, processo legislativo e gestão pública. Foi chefe de gabinete do ministro da educação (2008-2011), diretor de política regulatória da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação (2015) e subchefe adjunto do núcleo social da Subchefia de Análise e Acompanhamento de Políticas Governamentais da Casa Civil da Presidência da República (2016). Atualmente, é advogado e coordenador do mestrado e do doutorado em direito constitucional do IDP, em Brasília, e professor do Insper/SP. Com experiência acadêmica em direito, teoria política, sociologia e filosofia da linguagem, tem publicações nacionais e internacionais nessas áreas.

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Publicado

2021-10-28

Como Citar

Bachur, J. P. (2021). Desinformação política, mídias digitais e democracia: Como e por que as fake news funcionam?. Direito Público, 18(99). https://doi.org/10.11117/rdp.v18i99.5939