A política identitária em questão: reflexões a partir de Judith Butler e Achille Mbembe

Marco Antônio Sousa Alves, Gabriela Campos Alkmin

Resumo


A noção de “identidade” adquiriu, nas últimas décadas, grande importância no cenário político e cultural, ao ser apropriada pelas chamadas “políticas identitárias”. Neste artigo, pretendemos desenvolver uma reflexão crítica dessa apropriação a partir das contribuições de Judith Butler e de Achille Mbembe. Analisaremos diferentes obras desses autores, em especial os livros Problemas de gênero (1990), Quadros de guerra (2009) e Corpos em aliança e a política das ruas (2015), da filósofa norte-americana, e Sair da grande noite (2010), Crítica da razão negra (2013), Políticas da inimizade (2016) e Brutalismo (2020), do pensador camaronês. Pretendemos mostrar que ambos desenvolvem uma crítica, tanto teórica quanto prática, que se volta contra a ideia de identidade-substância e, também, contra determinados usos políticos que privilegiam as diferenças e as separações. Seja ao repensar o feminismo e o movimento LGBT+, seja ao rever criticamente as lutas antirracistas e anticoloniais, Butler e Mbembe, respectivamente, apontam para novas maneiras de fundamentar teoricamente a ação política e de organizar a luta desses grupos assujeitados e subalternizados. Butler e Mbembe, em nossa interpretação, caminham juntos no esforço de pensar para além da identidade e de promover alianças mais amplas, apontando em uma direção mais universalista, que privilegia o comum e volta-se para o futuro.

Palavras-chave


Política identitária; Identidade; Crítica; Judith Butler; Achille Mbembe

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